Douro, Portugal

Miradouro Galafura

Aquando de uma das minhas visitas pelo Douro, aproveitei para visitar, um dos miradouros da região duriense, São Leonardo de Galafura, que se situa perto de Covelinhas, a meio caminho entre a Régua e Vila Real.

A sua localização privilegiada permite admirar a beleza do Vale e lá ao fundo do Rio Douro, que no seu percurso e com todo o seu esplendor, vai serpenteando os socalcos.

De vez em quando, pequenas povoações lá aparecem dispersas pelos montes.

É claro que toda esta beleza, que tanto tem encantado as pessoas, também desperta várias sensibilidades, nomeadamente as dos poetas.

Miguel Torga, natural de São Martinho de Anta, uma localidade próxima, foi um desses poetas que se deixou encantar pela beleza do lugar. Era um local que ele visitava, com alguma regularidade e onde gostava de contemplar a água do Douro lá ao fundo.

Completamente seduzido, acaba por lhe render a mais bonita das homenagem, um Poema.

São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga

Ainda hoje, este poema, pode ser lido no miradouro, onde se encontra eternizado na fachada da capela.

Mas a ligação ao escritor neste local, não termina por aqui, pois também se pode ver um painel de azulejos sobre uma pedra com mais uma referência à obra de Miguel Torga.

O Doiro sublimado
Extracto da obra «Diário XII»:

«O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».

Miguel Torga

O miradouro também é um lugar de convívio, propício para encontros entre amigos/familiares, pois tem um parque de merendas e muitas árvores o que permite descansar à sombra.