Em Boticas, outrora, a ligação das pessoas ao Pardo, um local muito lindo nas margens do Rio Terva, era muito intensa.

Para além de aí existir um moinho de água que durante décadas moeu o milho, que era transportado para lá por burros e daí ter alguma importância em termos económicos, foi, também, o local escolhido por várias gerações de Botiquenses para aí passar o seu tempo livre.
Era comum preparem-se merendas e as famílias reunirem-se para aí as comer nas pequenas margens do rio, na maioria das vezes, sobre as rochas, pois no verão estas ficavam descobertas pela quantidade mais reduzida de água. Também era possível atravessar de um lado para o outro sobre as pedras da represa que ali existe. As crianças desafiavam o medo e aos poucos enfrentavam o rio. E foi assim que eu aprendi a nadar, bem como, praticamente todas as crianças da minha idade. E já os nossos pais tinham passado pelas mesmas experiências. Era comum eles irem ao rio fazer a sua higiene, pois nessa altura as casas não tinham grandes condições para isso. Foi, também, com eles, que ouvimos falar nos perigos do terrível “caldeirão”, um local temido por todos, onde supostamente existia um enorme buraco por baixo das rochas que tínhamos de evitar ao nadar, pois podíamos lá ficar por ser difícil conseguir sair dele. Ou ainda da tristeza de uma mãe que, todos os dias, ia chorar para as margens do rio, por este lhe ter tirado o seu filho, depois do jovem ter mergulhado na água por estar com muito calor, pois tinha trabalhado durante várias horas ao sol.
Durante as férias de verão, a meio da tarde, os jovens da minha idade marcavam encontro no “muro” da rua do Município e percorriam, juntos, o caminho até ao Pardo a pé e a conversar. Ao chegar ao rio, tomavam banho e mergulhavam até serem horas de voltar às suas casas. No regresso, havia sempre um lugarzinho na barriga para as amoras silvestres, que abundavam junto aos muros de pedra. Não havia problemas, nada nos afastava, não existiam diferenças, tínhamos pouco e sabíamos valorizar o pouco que tínhamos. Éramos, muito, felizes e não sabíamos…
Hoje, numa caminhada que se iniciou cedo, tentei reviver alguns destes momentos da nossa infância. Deixamos ficar o carro e fizemos o mesmo percurso a pé e na conversa.


O moinho de água, lá continua, já não mói mas continua lindo como sempre.




Junto à parte de baixo do rio, foi possível começar a apreciar a beleza da cascata do Pardo. A água cai, com muita força, pelas pedras aí colocadas pelos homens aquando da construção da represa.


Em pequena costumava entrar pela cascata e recolher-me num buraco que existia entre as pedras, para ver a água a cair. Passava, assim, longos minutos, sentada no interior, só a observar toda aquela beleza natural.
A quantidade, mais elevada, de água no Inverno cria cenários magníficos, como os de hoje, com o rio a invadir e a cair pelas rochas e entre as árvores da outra margem.

Depois da força da cascata, o rio retoma o seu percurso de forma mais tranquila, mas igualmente bonita.





Para poder ver a parte superior do rio, a do açude, é necessário escalar pelas rochas para passar para o outro lado do moinho.


É um percurso que custa um pouco, principalmente para quem não esteja habituado a este tipo de caminhos mais acidentado.
Mas o pequeno esforço é logo compensado pela beleza da paisagem.



Para usufruir deste cenário único, o melhor é sentar-se numa das inúmeras pedras junto à cascata e apreciar o som da água a correr, bem como, a beleza do seu movimento.






Assim fiquei durante uns tempos, em silêncio, perdida nas recordações da minha infância, a pensar que tinha regressado ao Pardo, o mesmo que me viu crescer e que muito me ensinou, pois será, sempre, o Pardo da nossa infância…