Barroso, Carvalhelhos, Concelho de Boticas, Portugal

Caldas Santas de Carvalhelhos…

Carvalhelhos é uma das aldeias mais conhecidas do concelho de Boticas, devido às suas águas.

A crença nos poderes curativos desta água, começou cedo, baseada na história de uma senhora com o corpo coberto de chagas, que acabou por tomar banho nas águas de uma nascente, existente próxima da povoação de Carvalhelhos, resultando daí a sua cura.

O local chegou, mesmo, a ser chamado de “caldas santas”, onde um grande número de pessoas acorriam em busca da cura para os seus males.

Tem, também, um passado ligado à história, pelo qual passou, por exemplo, o povo celta e onde são várias as marcas deixadas, na localidade.

O nome de Carvalhelhos, também, foi levado a muitos pontos pela mão do escritor Miguel Torga, que gostava de se refugiar nesta aldeia, e onde escreveu alguma da sua imensa obra. Placas metálicas em frente à estalagem, onde costumava ficar, bem como em outros pontos da aldeia, relembram alguns excertos da autoria do escritor.

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Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo de alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue dum semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno. Homens para quem o absoluto é relativo clarificado, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lha pede em casamento:

Pastora é,

Gado guardou;

Se sebe saltou;

Se nalguma se picou,

Tal como está

Assim vo-la dou…

(Miguel torga, in Diário VIII)

Ao entrar em Carvalhelhos pela rotunda, pode-se observar a “estátua d’A Barrosã”, uma obra da autoria do escultor Francisco Simões, que foi inaugurada aquando das comemorações do centenário das Águas de Carvalhelhos.

O Castro de Carvalhelhos revela as ruínas de um povoado habitado desde a Idade do Ferro até à Época Romana, onde para além da muralha que o protege, também é possível apreciar construções habitacionais, aparentemente organizadas em bairros, de planta circular e rectangular.

Voltei ao parque termal. Voltar, em dois sentidos, porque durante a minha infância era um local que eu frequentava muito, pois acompanhava uma prima com problemas de pele, que aí era tratada com banhos de imersão diários.

Existia um circuito que seguíamos a pé e do qual, hoje em dia, pouco resta, mas o parque termal continua a ser um cantinho de frescura e de tranquilidade, ao som da água a correr.

Durante os dias mais quentes é possível provar a água milagrosa, que continua a ser distribuída num bebedouro, com teto de colmo, junto ao rio. Como estava frio e meio de chuva, este, ainda, se encontrava encerrado e protegido por um enorme plástico.

Está localizado junto ao rio, onde supostamente tudo terá começado e onde uma estátua metálica relembra que aconteceu há cem anos.

Subindo mais um pouco, o bairro dos operários fabris, convida a continuar a caminhada.

Em frente, um pequeno caminho leva à Fonte dos Amores.

A Fonte dos Amores é uma pequena cascata, cujo nome deriva da Lenda da Fonte dos Amores, que conta que este foi o local no qual um rapaz se apaixonou por uma linda Moura que aí gostava de se banhar.

É, portanto, um local ligado ao amor e muito escolhido para se refrescar, descansar e/ou, até, fazer declarações de amor.

Seja por um motivo ou por outro, Carvalhelhos tem um encanto sem fim.