Barroso, Concelho de Montalegre, Portugal

Somos, todos um pouco, filhos da Misarela!…

A Ponte da Misarela marca o limite entre Trás-os-Montes e o Minho, no concelho de Montalegre. Até se atribui um dos lados do rio ao distrito de Braga e o outro a Vila Real. Por isso a sua localização é sempre muito disputada.

Foi construída num lugar magnífico entre penedos e muita vegetação, mas onde todos nos questionamos como foi possível construir uma ponte, e logo esta ponte que parece tão frágil, naquele sítio. Caso para dizer que sendo conhecida como a ponte do Diabo é mesmo uma obra do Diabo.

A sua origem remonta à Idade Média, tendo superado várias guerras, efeitos ligados ao mau tempo e a sua utilização no dia a dia por parte das pessoas e animais, mas que obrigaram a algumas reconstruções.

É um lugar que vive associado a muitas lendas. As mais conhecidas ligam-na ao Diabo e à fertilidade.

A ligação ao Diabo, surge quando um ladrão em fuga, chega a este local e percebe que não tem hipótese de atravessar o rio. Desesperado evoca o Diabo a quem pede ajuda em troca da alma. Este aceita e faz aparecer uma ponte que acaba por ruir depois do homem a atravessar para impedir que os perseguidores o apanhem. Mais tarde, arrependido de lhe ter vendido a alma, pede ajuda a um padre. Este acaba por ir ao mesmo lugar e solicitar a mesma coisa ao Diabo, que faz reaparecer a ponte. Nesse instante retira das suas vestes, um recipiente de água benta que trazia escondido e começa com a ladainha dos exorcismos. O Diabo acaba por se assustar e fugir, deixando, desta vez, a ponte intacta.

A outra, também muito conhecida, é a que atribui à ponte propriedades ligadas à fertilidade. Assim, as mulheres que sofreram vários abortos, para conseguirem levar uma nova gravidez até ao fim, deslocam-se à ponte e esperam até que vejam a primeira pessoa. Esta será o padrinho/madrinha do bebé. Com uma púcara é recolhida um pouco de água do rio que é deitado sobre a barriga da mulher e dito o seguinte:

“Eu te batizo, criatura de Deus, pelo poder de Deus e da Virgem Maria. Se fores rapaz serás Gervaz, se fores rapariga, serás Senhorinha.”

As gentes do Barroso sempre acreditaram muito nestes saberes, passados de geração em geração, de mezinhas, curas e rituais, pois para elas era difícil serem vistas por um médico e, mesmo que fosse mais fácil, certos males não podem ser curados por médicos.

Grande parte das famílias da região têm um antepassado chamado Gervásio ou Senhorinha, daí dizer-se que somos, todos um pouco, filhos da Misarela.

Para conseguir chegar à ponte é necessário andar um pouco a pé.

As vistas e cenários durante o percurso são diferentes, alguns deslumbrantes.

Durante a descida, a ponte vai aparecendo timidamente e é constante o barulho da água.

O estradão de terra batida, dá lentamente lugar a outro todo reforçado de pedras.

Finalmente aparece a ponte, mesmo à nossa frente. Com uma construção que, realmente, mais parece uma obra do Diabo.

À entrada da ponte, numa pedra, uma placa relembra alguns dos feitos históricos que aí ocorreram.

Aconselho atravessar. Sem receio.

Do meio da ponte, o cenário é lindíssimo, quer para um lado quer para o outro.

Do outro lado, uma bela cascata, cai ali mesmo, junto à ponte.

A vista sobre a ponte ainda se torna mais deslumbrante da outra margem.

Um cenário lindíssimo que apela a ali ficar só para o poder observar, no meio de toda aquela vegetação.

Da minha parte foi amor à primeira vista. É um lugar que marca e, por isso, fica cá dentro.

Não sei se foi o Diabo que a construiu, ou se foi esta ponte que permitiu com que houvesse mais um Gervásio ou uma Senhorinha, só sei que a Misarela é de todos os que acreditam nela. Na sua beleza. Na sua autenticidade.

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