Europa, Portugal

N°422, da Rua do Passeio Alegre!…

Nesta fase da pandemia, em virtude das deslocações estarem limitadas, tenho aproveitado para viajar dentro de mim.

Tenho ido às gavetas da memória, relembrado e escrito sobre os lugares que me são mais queridos, pois é sabido que não se sentem os sítios com a mesma intensidade.

E falar sobre os locais que estão cá dentro, obviamente é falar sobre aquela que eu considero “A Cidade”, o Porto.

O Porto é, para mim, um reviver de anos bons, principalmente aqueles que eu considero os melhores anos da minha vida, os da Faculdade.

Decidi, assim, que este meu primeiro post sobre o Porto, é dedicado à rua onde vivi durante os vários anos em que tive a sorte de residir nesta, tão bela, cidade, a Rua do Passeio Alegre.

Tinha casa nessa rua, o número 422, na conhecida Cantareira, ali mesmo, em frente, à Foz do Rio Douro.

Uma casa comprada, quando eu era ainda criança, por familiares meus para ser a sua casa de férias em Portugal, pois residiam no estrangeiro.

Desde muito nova, então, habituei-me a gostar muito desse pequeno cantinho, que também considerava muito meu, por estar presente durante tantos anos na minha vida.

Nesta rua conhecia, portanto as pessoas e as suas rotinas, bem como as histórias de vida de grande parte dos moradores, desde o casal de emigrantes regressados de França e que tentava recomeçar a vida em Portugal com os dinheiros ganhos no estrangeiro, ao Senhor que tinha ficado sem pernas, quando, ainda em miúdo, tinha sido colhido por um elétrico.

Conhecíamos-nos e falávamos uns com os outros.

Festejavamos, juntos, as vitórias do Futebol Clube do Porto. E embora não seja adepta desse clube, uma parte de mim será sempre, também, um pouco do Porto.

Era festa toda a noite quando o Porto era campeão, mas também ninguém dormia na noite de São João.

Os grelhadores a carvão invadiam cedo os passeios da rua, nesta que era a noite mais louca da cidade, para assar as sardinhas, que se comiam com batata nova cozida e vinho tinto.

Tenho as melhores recordações da rua e dos seus moradores, mas, também, da casa onde passava férias em criança e onde vivi parte da minha juventude.

Esta, tudo, pode recordar e contar, desde as horas que eu passava, em criança, na varanda a ver os elétricos passar a tudo o que eram as vivências típicas de uma estudante na faculdade.

Histórias de amizade e de amor. Horas intermináveis de estudo. Momentos de cumplicidade e de solidão. Momentos felizes e outros menos felizes. Assim é a história da casa que, se eu hoje ainda tivesse a oportunidade de poder escolher, continuava a ser a “minha” casa.

Recordo, portanto, a casa e a rua com muita saudade.

Não posso regressar a esses tempos, mas posso, sempre que tenho oportunidade, regressar ao Passeio Alegre. É o que eu faço, na tentativa de, ainda, reviver algumas das rotinas desse tempo.

É claro que tudo mudou. O antigo passeio dos pescadores, por exemplo, deu lugar a uma rua toda sofisticada e muito frequentada por turistas, mas regressar aos sítios onde se foi feliz é continuar a sentir a entrega a estes.

Ia todos os dias para as aulas no elétrico, o n° 18, que fazia a ligação entre a Boavista e a Praça dos Leões.

Era o único meio de transporte que ali existia quer para o centro da cidade, quer para o lado contrário, Matosinhos.

Passava de 20 em 20 minutos e não o podia perder pois os horários de um estudante são sempre geridos ao extremo.

Hoje, ainda, é possível viajar de elétrico nesta zona, embora, agora num circuito mais turístico.

O conjunto de edifícios/serviços, conhecido por “Os Pilotos”, lá continua.

Nele, o Marégrafo da Cantareira, testemunha de tantos perigos, entrega-se às medições e registo do nível médio das águas.

As vistas deste pequeno cais continuam a ser lindas.

A Paparoca da Foz, pastelaria da zona, acompanhou as mudanças provocadas pelo tempo e ainda é possível provar todas as suas delícias.

Do outro lado da curva, como dizíamos, muitos são os interesses.

Do Jardim do Passeio Alegre à casa onde viveu Eugénio de Andrade torna-se obrigatória a visita.

Outra referência é a Capela da Nossa Senhora da Lapa.

Uma capela que aparece nos registos históricos, mais antigos, da cidade.

As pessoas sentiam uma ligação muito forte à sua padroeira, pois esta zelava pelos marinheiros que iam ao mar, sendo-lhe atribuída muitas histórias de salvamentos.

Hoje, a capela é propriedade particular.

Estas viagens dentro de nós, são, sem qualquer dúvida, intensas…

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