Barroso, Concelho de Boticas, Freguesia de Sapiãos, Portugal, Serra do Leiranco

Sapiãos, a memória da mais velha história

“Álbum das recordações
Para novas gerações
As suas lendas marcou
A raça peninsular
Com fama singular
Do povo que a criou.

Sapiãos
Vive a memória
Da mais velha história”

São várias as teorias sobre a origem da localidade de Sapiãos, uma aldeia do concelho de Boticas, ou sobre quem terão sido os seus primeiros habitantes, tal como, até, se pode julgar pelos versos do seu hino.

Sabe-se, apenas e com toda a certeza, que tem um passado remoto, devido ao imenso património histórico que existe nesta, tranquila, terra localizada no sopé da Serra do Leiranco.



É atravessada pelo Rio Terva, com o qual a população, desde sempre muito ligada à agricultura, tem uma relação muito particular.

“Ribeirinho sem igual,
És o ribeiro mais lindo
Do Norte de Portugal.

Desces da Serra do Leiranco, Serra alta com muita fama,
Vens visitar a nossa terra”

Os  terrenos,  que  se  estendem, portanto, ao  longo  do  vale,  são um verdadeiro privilégio para as pessoas que os trabalham, pois são fartos para todos os que se dedicam à agricultura ou à criação de gado.


Pelos vários caminhos que permitem aceder ao rio, agora, também é comum encontrar pessoas a caminhar.


É , portanto, uma localidade rica em recursos naturais e agrícolas, mas, também, em termos históricos, pois são vários os vestígios que nos permitem concluir que a sua origem deve datar dos  primeiros séculos  antes  de  Cristo e existem várias evidências da ocupação destas terras no período medieval.

A ligação a esse período, ainda, é notória ao passear no seu centro histórico, por exemplo, onde a  morfologia das casas e das ruas, estreitas e sinuosas, não deixam grandes dúvidas.


Pensa-se que a localidade de Sapiãos poderá ter sido habitada por diversos povos e que foi ponto de passagem de uma via Romana, que ligava Braga às termas de Chaves.

Também há quem defenda que até o próprio nome da região, BARROSO, teve origem nesta aldeia, devido a um fidalgo que era senhor das Terras do Barroso e que ali tinha uma Torre.

O certo é que, mesmo com todas estas dúvidas, é uma localidade com muito para contar, cheia de testemunhos, encontrados por exemplo nos castros, que sustentam muitas das histórias associadas à aldeia.


Eu gosto de entrar na aldeia, pela pequena estrada que nos liga às sepulturas antropomórficas, uma das maiores atrações desta localidade e até do concelho.


Estas ficaram mais conhecidas, a relativamente pouco tempo, desde que passaram a ser preservadas na chamada “necrópole de pássaros“.

É um conjunto de vários túmulos, de diversos tamanhos, com o formato de uma silhueta humana escavadas em granito.


No local, ainda, existe um cruzeiro todo trabalhado.


As sepulturas estão localizadas no caminho de acesso à igreja românica que também, data, do período medieval.


A Capela do Cemitério, como é chamada pelas pessoas da aldeia, encontra-se, bastante distante da população, o que nos leva a pensar sobre o porquê disso acontecer.


A sua construção é dos finais do século XII, início da transição do românico para o gótico.

Encontra-se encerrada, não existindo nada no interior, pois algum do seu espólio foi levado para as outras igrejas da povoação.

Outrora só as pessoas mais importantes do “povoado” é que eram enterradas neste local, mas com o tempo passou a ser o cemitério da aldeia.

E foi nesta capela românica onde se celebraram os atos religiosos até ao século XVIII, a partir daí passaram a ser realizados em outros edifícios religiosos, entretanto, construídos com dinheiro vindo dos emigrantes do Brasil, que sempre mantiveram uma ligação de grande proximidade com a terra onde tudo começou para eles.

Assim, existem mais templos religiosos em Sapiãos, a Capela da Senhora dos Anjos, a igreja matriz e uma magnífica capela particular.



A outra Capela, a particular, está, atualmente, a necessitar de obras.


Todas as cerimónias realizam-se na atual Igreja Paroquial, cujo padroeiro é São Pedro.

De estilo Barroco apresenta uma arquitetura  muito interessante, com uma torre sineira a partir da qual se acede à entrada da igreja.


Existem, também, pela aldeia vários cruzeiros,  localizados nos cruzamentos das ruas e no centro da aldeia, onde se acredita que o profano gosta de atentar as pessoas.



O calvário com as suas cruzes graníticas, logo à entrada, dá as boas vindas a quem visita a aldeia.


Tal como já foi referido, a água tem uma ligação muito forte às pessoas da aldeia.

Existem, por exemplo, diversas  fontes pela localidade, onde, outrora, as  mulheres  iam  buscar água com  cântaros. 

Escusado será dizer que estas saídas, por vezes, as únicas a ocorrerem completamente sozinhas, provocaram   muitos   namoros  e casamentos na aldeia.

Os cânticos da aldeia ainda falam sobre isso.

“Se te queres casar
Anda, meu amor, à fonte comigo, Eu peço ao Senhor p’ra casar comigo,
Verás se é ou não
Verdade o que eu digo.”

A fonte, mais bonita, da aldeia é, no meu entender, a de mergulho.


Estas fontes são chamadas assim, pelo facto de se ter de mergulhar o cântaro na água para a retirar.

Existem, muitos mais, motivos para visitar a aldeia de Sapiãos, onde se vive e sente, pelas suas ruas, a história dos antepassados.

Tenho com esta aldeia uma relação de carinho e proximidade, por ser, a aldeia do meu avô paterno e escrever este post, é, no fundo, mais uma forma de o recordar.

Termino, recorrendo, mais uma vez, aos versos das cantigas ligadas à aldeia, que confirmaram e reforçaram, ao longo das palavras,  tudo aquilo que eu ia escrevendo.

” Minha terra é Sapiãos,
Eu doutra terra não sou,
Só dela não tem saudades
Quem por lá nunca passou.”

2 opiniões sobre “Sapiãos, a memória da mais velha história”

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